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A Inspiração em tempo de mudança

(7 min)

Nunca fui grande fã de fases de transição. São uma espécie de "nim" - sinto que não estou
bem onde estava e ainda não estou bem onde vou estar. Numa fase de transição, tudo é
incerto, tudo é questionável, tudo é uma possibilidade.

De repente, como a Alice no país das maravilhas, dou por mim inegavelmente num sítio
diferente, e por muito que eu tente lembrar-me do que resultava para mim, que tente recriar
isso e por em prática, tudo me mostra que isso simplesmente não é possível. Vou ser forçado a
reconfigurar-me, a perceber como quero ver e viver a vida a partir de agora, a prestar atenção
ao que me faz ou não feliz, porque só há uma coisa que eu tenho a certeza - a minha forma de
viver deixou de funcionar.
Neste caso, refiro-me à passagem para a vida profissional. Não é que não tenha trabalhado
antes, mas há algo de particular em escolher um trabalho "full-time", algo que vamos fazer a
tempo inteiro, que nos vai ocupar o tempo todo! Claro que não é bem assim, mas é difícil não
pôr algum peso numa decisão que, pelo menos durante algum tempo, vai definir como vou
passar 8 horas do meu dia, 5 dias por semana. Tendo experienciado como as pessoas à minha
volta também têm lidado com esta situação, vejo como nos tem forçado a percebermo-nos
melhor, a questionar o que realmente gostamos e valorizamos e a tornarmo-nos um pouco
mais adultos.

Diria que esta pode ser a passagem mais clara para o que vemos como a vida adulta na
sociedade. E que tipo de adulto quero eu ser?
Esta pergunta tem me assombrado ininterruptamente desde que me apercebi que se estava a
aproximar o final do meu mestrado, e que em breve a minha vida mudaria completamente. E
foi assim que dei por mim, como nunca antes, à procura de inspiração à minha volta. Senti-me
incapaz de tomar decisões sobre como quero ser sem consultar outras pessoas que não eu
próprio, senti que não poderia tomar escolhas informadas se não soubesse as escolhas que
outras pessoas faziam, sem saber sequer algumas das escolhas possíveis de tomar!
Comecei a prestar muito mais atenção às pessoas à minha volta, a fazer muito mais perguntas
sobre a forma como viviam, a tentar entender como percecionavam a vida e o seu significado.

Nesta procura por inspiração, inevitavelmente, tirei algumas conclusões, algumas sobre como,
de facto, pretendia viver a minha vida (a maioria ainda por implementar), outras sobre este
processo de procura em si. Teorizei que existem dois grupos de pessoas que servem de
inspiração nesta fase:

  1. 1- O mesmo tipo de pessoas que eu, na mesma fase que eu.

Este tipo de inspiração é sobretudo baseado num sentimento de partilha, e em permitir que eu
perceba que não sou maluco - é normal eu ter estas questões, é normal eu achar que quero
ser assim, há outras pessoas no mesmo processo que eu, não estou sozinho, estou a fazer a
coisa certa.
Entendi a importância de me rodear, pelo menos parcialmente, de pessoas assim, como forma
de combustível para seguir neste caminho.

  1. 2- As pessoas numa fase mais avançada da vida, os mentores.

Tendo percorrido já mais algum caminho nesta maratona, os mais velhos têm a oportunidade
de acumular alguma sabedoria sobre como melhor viver para se ser feliz. Os mais velhos são
prova viva, são o resultado das escolhas que fizeram durante a sua vida, e por isso podem ser
uma enorme fonte de esperança para o nosso próprio futuro. Quando os vemos como alguém
que falhou na vida, por outro lado, pode ser altamente desanimador.

Se repararem, enquanto eu referi que, para pessoas na mesma fase que eu, é importante que
sejam o mesmo tipo de pessoa que eu (mas não necessariamente), o caso dos mentores é
diferente. Pela experiência acumulada que têm, inclusivamente por terem observado vários
tipos de pessoas crescerem, um mentor, através da intimidade intelectual com alguém numa
fase anterior, pode ter o poder de identificar o tipo de pessoa com quem está a lidar e dar
conselhos personalizados.
Ainda assim, eu considero bastante importante que, ao olharmos para os mais velhos,
reflitamos sobre como a forma de viver que eles adotaram, naquela fase mais avançada da
vida, nos faz sentir: isto inspira-me, ou desanima-me? Este exercício pode nos ajudar a
perceber qual é esse tipo de pessoas que somos.
Sabem aquela velha de conversa que é algo como:

A minha opinião é que não, não nos vamos necessariamente todos tornar em algo parecido
com os nossos pais. Muitas vezes o que acontece é que os nossos pais são tipos diferentes de
pessoas do que nós somos. Este exercício que falei pode nos ajudar a perceber qual é esse
tipo de pessoas que somos.

Os Arquétipos

Carl Jung, o fundador da psicologia analítica e um pensador cuja obra marcou profundamente
o século XX, desenvolveu o conceito dos Arquétipos: estruturas psíquicas universais que se
repetem ao longo da história humana. Não é por acaso que, na literatura ou na vida real,
encontramos pessoas e personagens com as quais nos identificamos de forma quase
instintiva.

Os arquétipos ajudam-nos a compreender que, apesar de cada pessoa ser única, existem
padrões de personalidade e de valores que atravessam gerações. Podemos reconhecer em
alguém certos traços que também vivem em nós — uma forma de pensar, uma sensibilidade,
uma atitude perante o mundo. Por exemplo, posso encontrar alguém que, como eu, valoriza
profundamente as ideias e a reflexão; isso não significa que sejamos a mesma pessoa —
talvez essa pessoa seja mais humorista e relaxada, e eu mais metódico e intuitivo —, mas
partilhamos uma mesma base.
É por isso que, quando olhamos para pessoas que viveram ou agiram de formas que nos
inspiram, sentimos uma espécie de reconhecimento interior: percebemos que pertencem ao
mesmo tipo humano que nós, ainda que em versões diferentes. E, justamente por isso,
podemos aprender com elas — observar as escolhas que fizeram, os caminhos que seguiram,
e assim vislumbrar formas de avançar também no nosso percurso.
O contrário também é verdadeiro: tentar seguir os passos de pessoas que valorizam coisas
completamente diferentes das nossas pode levar-nos a uma luta interior, a um desvio do nosso
próprio caminho. Não é que essas pessoas estejam erradas, apenas pertencem a outro
arquétipo, e seguir os seus conselhos seria como usar o mapa de outra alma.

A crise dos mentores

É certo que encontrarmos pessoas mais velhas semelhantes a nós é fantástico, e quando
tenho essa oportunidade quero-lhes fazer todas as perguntas do universo!

Infelizmente, o maior contacto que tenho tido com esta última estirpe de pessoas que referi tem
sido em podcasts ou livros. Ainda que tenham sido uma enorme fonte de inspiração, reservam
um problema - aqueles conselhos sobre como viver a vida não foram escritos para mim
pessoalmente.

Como Sócrates dizia na sua Apologia, escrita por Platão, o valor de um conselho depende de
quem o recebe. Visto isto de outra forma, a sabedoria não é ter ou transmitir conhecimento,
mas saber como usá-lo. Um mesmo conselho pode ser muito bom para uns e muito nocivo
para outros. É importante que tanto o dador de um conselho (o mentor) como o seu recetor
tenham isto em mente.
Digo mais, é importante que toda a sociedade tenha noção disto. Temo que estejamos numa
era em que os verdadeiros mentores sejam cada vez mais raros, substituídos pelo
conhecimento técnico, como menciona Alain de Botton, pelos mentores de auto-ajuda, pelos
psicólogos e talvez pelos filósofos. O problema, como referi anteriormente, é que não há
contacto direto com estas pessoas, salvo os psicólogos. Utilizando o meu caso como exemplo,
que sou particularmente afim aos filósofos, por muito que eu aprecie os seus escritos, os seus
discursos sobre como viver a vida, isso não me chega - porque a maioria destes filósofos
escreveram em fases mais avançadas da vida e porque eu não posso simplesmente contactá-los,
não sinto que recebo os conselhos como eu necessito, pelo descontexto em que os
encontro.
Parece-me que nem sempre foi assim. Antigamente, quando a sociedade era mais unida por
sistemas de crença comuns, como o Cristianismo, os padres eram mentores. Ainda antes, na
Grécia antiga, haveria os antigos em cada escola filosófica. Nas tribos, existem shamans e os
mais velhos que ocupam este papel.
Para isto, no entanto, é necessário que se acredite que a nossa vida vai ter muitos pontos em
comum, que os mais velhos sintam que faz sentido aconselharem os mais novos, e que os
mais novos valorizem os conselhos dos mais velhos.
Numa sociedade que começa a valorizar a autenticidade e a individualidade a cima de tudo,
isto torna-se crescentemente difícil, visto que se o dogma principal é "torna-te em quem tu
realmente és", pode parecer que o único conselheiro que devemos valorizar somos nós
próprios. E mais, aconselhar alguém pode até ser visto como interferir no seu caminho, que
deve ser inteiramente escolhido por este.

Para além disto, penso que há outro fator importante - a velocidade de mudança da sociedade
que temos experienciado nas últimas décadas. Enquanto antes um velho poderia dar
conselhos a um novo sabendo que as suas vidas teriam muito em comum, hoje pode aparentar
não ser o caso. Se os velhos cada vez menos sentem a capacidade de entender como o
mundo funciona, especialmente para os mais novos, podem perder a vontade de se
expressarem, podem achar que o seu conselho deixa de ser válido.
Sem mentores, falta-nos algo que é mais do que orientação prática — falta-nos uma presença
simbólica, alguém que encarne um ideal possível de maturidade. Jung descreveu esta figura
como o arquétipo do “Velho Sábio”: não apenas alguém mais velho, mas alguém que, tendo
descido às profundezas da vida, regressou com uma forma de sabedoria que pode e quer
partilhar. Quando esta figura desaparece da nossa cultura, o processo de amadurecimento
torna-se mais solitário. É como se cada geração tivesse de reinventar o caminho, sem ter
acesso à experiência acumulada da anterior.

A importância da partilha de conhecimento

Enquanto pode ser verdade que conselhos generalistas como "estuda para não acabares
como eu" podem, de facto, estar ultrapassados, os conselhos que realmente importam, os que
são dados depois de compreender intimamente a pessoa com quem falamos e ao tentar
aplicar o nosso conhecimento à especificidade da sua situação - podem ser mais importantes
que nunca -, no ambiente de caos, velocidade e incerteza em que vivemos.
Antigamente, quando a nossa sociedade era dominada pelo cristianismo, era mais fácil
sabermos como seguir o nosso caminho, selecionar os nossos valores - bastava ler um livro,
interagir com a comunidade, pedir conselhos e direções espirituais ao padre local.
Hoje, acreditamos que cada pessoa deve criar o seu próprio sistema de valores. Deixámos de
acreditar em sistemas universalistas, que definam o caminho para todos. Propomo-nos a
aceitar o desconhecido, a encontrar beleza nisso, e isso requer uma grande coragem! Mas
quando sentimos que precisamos de direções, neste momento, temos pouco por onde pegar. É
natural que procuremos algo que nos explique tudo de forma simples, mas viver é tudo menos
simples!

O caminho é muitas vezes confuso, mas todos sabemos o quão diferente é estar perdido
sozinho ou acompanhado - e se alguém já o tiver percorrido, ou um semelhante, venham de lá
as direções, mesmo que não estejam todas certas!

— André Guerreiro